uma história da quebrada das estrelas
Essa história aqui vai dedicada pro meu camarada de infância, que hoje anda na correria dos grande, esquecido de quando a gente ficava de bobeira no alto do morro, olhando nuvem — e cada nuvem era bicho, e cada bicho era sinal, e ninguém precisava explicar nada pra ninguém.
Peço perdão à criançada toda por dedicar esse livro a um vargulino crescido. Mas ele merece — escuta aqui: já foi o moleque mais sangue bom da quebrada inteira. Hoje tá longe, passando frio, sem ninguém pra dividir uma cachacinha de madrugada. E quando o sujeito tá assim, até o pôr do sol fica sem graça.
Todo malandro crescido já foi criança um dia. Mas quase nenhum se lembra disso — e aí tá o problema.
Então corrijo a dedicatória: vai pro mesmo parceiro, só que quando ele era moleque e ainda sabia a letra de todas as cantigas que a vida ensina e o tempo apaga.
· · ·Quando eu era moleque — e olha, meu filho, isso faz tempo, faz tempo que só — vi num livro velho uma imagem que me acertou na cabeça feito bolada de gude no olho. Era uma jiboia, das brabas, que engolia os bicho tudo inteiro, sem mastigar, sem cerimônia, e depois ficava ali de boa, esticada, digerindo na moita. Seis meses sem se mexer. Uma barbada pro bicho — mas um sufoco pro que foi engolido.
Fiz meu primeiro desenho. Me achando o tal. Mostrei pros coroa e perguntei, cheio de pose: «isso aí não dá medo, não?»
«Medo de quê, rapaz? Isso aí é um chapéu.»
Aí fiz o segundo desenho, esse com o bicho transparente, pra ninguém confundir o almoço com o chapéu. Mas os coroa mandaram eu largar de palhaçada e ir estudar geografia, gramática, conta de vezes — (que, cá entre nós, nunca me serviu pra acertar no milhar).
Foi assim que larguei a carreira de artista logo no primeiro rabisco. Se acorda, vargulino: os coroa da vida nunca entendem nada sozinho. Cansa, irmão. Cansa demais ficar traduzindo poesia pra quem só entende número e nota fiscal.
Virei piloto de avião. Voei o mundo inteiro — deixei a vida me levar, que a vida levou. E a geografia, essa sim me serviu de alguma coisa: aprendi a distinguir a China do Arizona no escuro, o que é útil quando se tá perdido de madrugada sem bufunfa no buraco do pano e sem estrela no céu.
✦ ✦ ✦Vivi assim na solidão — sem um parceiro de verdade pra trocar ideia no botequim da existência — até o dia que meu avião deu pau no meio do Saara. Uma peça quebrou dentro do motor. E como eu tava sem mecânico, sem passageiro, sem ninguém — (mais sozinho que cachorro de mudança, como diria o Dicró) — me preparei pra desenrolar o conserto na raça. Era questão de vida ou de sede: mal tinha água pra uma semana.
Dormi na areia, mais longe de qualquer vivente do que náufrago no meio do oceano. Imagina só o susto quando, de manhãzinha — aquela hora que o céu ainda tá decidindo se é noite ou dia — uma vozinha miúda me acordou:
«Aí, cumpadi... faz um desenho de um carneiro pra mim?»
Levantei dum pulo que nem gato escaldado. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um molequinho fora do comum, parado ali me encarando com uma seriedade de quem sabe de uma coisa que eu não sei. Não parecia perdido, não parecia com fome, não parecia com medo de nada naquele fim de mundo. Tinha uma ginga de quem tá em casa em qualquer canto do universo.
Quando enfim consegui descolar a língua do céu da boca, falei:
«Opa — mas o que é que tu faz aqui, rapaz? Se perdeu na madrugada?»
E o vargulino repetiu, devagarinho, com aquela calma de quem já sabe que quem tem pressa come cru:
«Faz um desenho de um carneiro pra mim... faz favor.»
· · ·Ora, eu nunca tinha desenhado carneiro na minha vida — (desenhava jiboia, e olhe lá). Mostrei o que eu sabia: a jiboia por fora, aquela que os otário acha que é chapéu. O moleque olhou e disse:
«Não, não, cumpadi! Jiboia com elefante dentro eu não quero, não. Jiboia é bicho perigoso, e elefante ocupa espaço que só. Lá onde eu moro tudo é pequeninho, sabe? Cabe numa mão só, o meu lugar. Preciso é de um carneiro. Desenha um carneiro, vai.»
Tentei na boa. Desenhei um gordo — recusou. Desenhei um magricela — recusou. Desenhei um velho, com cara de quem já viu muita sinuca nessa vida — recusou também. Já impaciente, desguiei na carreira e rabisquei uma caixa com três furinhos. Falei:
«Ó, tá aí a caixa. O carneiro que tu quer tá dentro. Que eu saiba, caviar eu nunca vi nem comi, só ouço falar — mas carneiro na caixa, tá aí.»
Aí o rosto do moleque se acendeu que nem lampião de esquina:
«Isso, cumpadi! Era exatamente isso que eu queria! Tu acha que ele come muito capim?»
E foi assim, na base do improviso, que eu conheci o pequeno príncipe.
✦ ✦ ✦Demorei pra descobrir de onde o elemento vinha. O pequeno príncipe era daqueles que faz um monte de pergunta mas não responde nenhuma das tuas — e se tu insiste, ele finge que não ouviu. Típico. Mas foi deixando escapar umas pistas, um detalhe aqui, outro ali — e assim, pelo papo, fui montando o samba todo.
O asteroide dele era desse tamanhinho — mal cabia uma casinha, dois vulcão e uma flor. Era o asteroide B-612, que um astrônomo turco avistou uma vez pelo telescópio. Mas ninguém acreditou no sujeito, porque o cara tava de roupa esquisita — (sabe como é, né? o malandro de chinelo não tem vez na conferência). Depois botou terno de linho, gravata, chapéu-panamá, repetiu a descoberta tim-tim por tim-tim, e aí sim bateram palma. Assim são os coroa: só acreditam na embalagem.
«Lá no meu morro tem três vulcão — dois aceso e um apagado. Mas a gente nunca sabe, né, cumpadi? Vulcão apagado é que nem malandro quieto: tu nunca sabe quando vai acordar. Então limpo os três. De manhãzinha eu levanto, limpo os vulcão, arranco os baobá que tão querendo crescer — porque se deixar, rapaz, eles tomam conta de tudo — e cuido da minha flor. É o meu ritual. Minha caminhada.»
As coisas mais bonitas da vida cabem no espaço de um suspiro — mas é preciso acordar cedo pra não perder nenhuma.
✦ ✦ ✦Soube logo de uma das melancolias do moleque: era doido varrido por pôr do sol. No planetinha dele — que era miudinho, do tamanho de um tanque de lavar roupa — bastava arrastar a cadeira uns passinhos pra trás e já era outro horário. Podia ver o sol descendo quantas vezes quisesse, uma atrás da outra, que nem reprise de novela.
«Um dia eu vi quarenta e três pôr do sol seguidos.»
E depois de um silêncio daqueles — dos que pesam mais que qualquer conversa:
«Sabe como é, cumpadi... quando a saudade aperta demais, a gente gosta de pôr do sol. É a hora em que o céu chora bonito.»
Eu quis perguntar: saudade de quê, rapaz? Mas malandro sabido não pergunta quando o silêncio tá dizendo mais que qualquer samba.
· · ·No asteroide do pequeno príncipe sempre brotaram flores simples, de uma pétala só — dessas que aparecem de manhã e somem de tarde, sem dar trabalho nem satisfação. Mas um belo dia germinou uma semente que veio sabe Deus de onde — (e Deus sabe mesmo, porque semente viaja mais que malandro fugido) — e o príncipe ficou de olho naquele broto diferente de todos os outros.
A flor se arrumou devagarinho por trás das cortinas verdes. Escolheu as cores com aquele capricho de quem vai pro baile e quer chegar causando. Se vestiu devagar, ajeitou as pétalas uma por uma, provou três tonalidades de vermelho antes de se decidir. Não queria sair toda amassada feito papoula de beira de estrada. Queria aparecer no esplendor inteiro da sua formosura — e olha que era formosa mesmo.
«Ah, acabei de acordar... desculpa, tô toda despenteada...»
Rapaz. Era vaidosa feito dondoca da Zona Sul. Cheia de exigência, cheia de manha — às vezes soltava cada frase que deixava o príncipe sem chão, sem teto e sem quintal. Pedia abrigo do vento, reclamava da corrente de ar, e logo ela, que tinha vindo de semente voando pelo universo. Até parece, né?
Mas ele não soube entender naquela época. Era novo demais, e rapaz novo confunde espinho com defeito. Não sabia que espinho é o jeito que a flor tem de dizer que o coração tá mole por dentro — e que quem mostra a unha é quem mais tem medo de carinho.
«Eu devia ter adivinhado a ternura por trás de tanta manha. Flor é assim: te espeta e te perfuma ao mesmo tempo. Mas eu era moleque demais pra saber amar. Quem sabe amar de primeira, cumpadi? Ninguém.»
✦ ✦ ✦O príncipe aproveitou uma revoada de pássaros selvagens pra dar no pé — desguiou na carreira, como se diz na gíria. Mas antes, olha: limpou os vulcão direitinho, arrancou os últimos broto de baobá, regou a flor pela última vez e cobriu ela com a redoma de vidro. E aí — (escuta) — sentiu uma vontade de chorar que nem cachacinha descendo pelo lugar errado.
«Adeus,» — falou pra flor.
Ela não respondeu. Ele repetiu. A flor tossiu — mas não era de resfriado, não. Era de orgulho engasgado.
«Fui boba. Me desculpa. Tenta ser feliz, vai.»
O príncipe ficou de cara. Sem reclamação? Sem exigência? Ficou ali parado, com a redoma no ar, sem entender aquela mansidão toda — porque a gente se acostuma com o espinho e quando vem a pétala, não sabe o que fazer.
«É... eu gosto de ti,» — disse a flor, com uma voz que ele nunca tinha ouvido dela. — «Tu não soube. A culpa foi minha também. Tanto faz agora. Mas tu foi tão bobo quanto eu, e eu fui tão boba quanto tu. Tenta ser feliz. Larga essa redoma, não quero mais não.»
«Mas o vento...»
«Não sou tão resfriada assim, rapaz. O ar fresco da noite me faz bem. Sou uma flor — e flor que se preza aguenta sereno.»
Visitou os planetas vizinhos, cada um com seu morador solitário — cada estrela com seu maluco, como dizia minha avó. No primeiro, um rei que reinava sobre coisa nenhuma e dava ordem pro vento — (o vento, por sinal, nem aí). No segundo, um vaidoso de chapéu alto que só queria palma, palma, palma, e se tu não batia ele achava que tu era surdo. No terceiro — escuta essa — um bebum que bebia pra esquecer a vergonha de beber. Eu sei: a lógica é torta. Mas já dizia um filósofo de botequim que eu conheço: a cachaça é o pior inimigo do homem, e homem que foge do inimigo é covarde. No quarto, um homem de negócio, desses que fica o dia inteiro contando estrela no caderninho, achando que as estrela são dele — sem nunca ter dado bom-dia pra nenhuma.
E no quinto viu o acendedor de lampião. Esse sim lhe pareceu menos absurdo, porque pelo menos o trabalho dele servia pra alguém — nem que fosse pra uma estrela que ninguém ia ver. O acendedor acendia e apagava, acendia e apagava: o planeta girava cada vez mais rápido e ele não tinha mais nem tempo de tomar uma cervejinha.
«Esse aí pelo menos não vive só pra si, cumpadi. É o único que eu conseguiria chamar de parceiro. Sujeito que trabalha pros outro, mesmo sem ninguém agradecer — isso é que é procedê.»
Os coroa são mesmo muito estranhos — pensou o príncipe, enquanto os pássaros o levavam de um planeta pro outro que nem ônibus fazendo linha no subúrbio do universo.
· · ·Quando chegou à Terra — essa daqui mesmo, essa redonda, essa que roda e a gente não cai — o príncipe não encontrou vivalma de primeira. Andou, andou, andou. Até que apareceu uma raposa debaixo de uma macieira, com aquele jeitinho esperto de quem tá ali faz tempo e sabe de tudo que acontece na vizinhança.
«Vem cá brincar comigo, raposinha,» — pediu o príncipe. — «Tô tão na fossa que se eu fosse mais triste era samba.»
«Não posso não, meu bem,» — disse a raposa. — «Não sou cativada.»
«Cativada? Que negócio é esse?»
«É uma coisa muito esquecida, que quase ninguém pratica mais. Quer dizer criar laço. Tu pra mim, agora, é só um moleque igual a cem mil outros moleque — não tem sal, não tem tempero, não tem diferença nenhuma. Eu não preciso de ti, tu não precisa de mim. Sou pra ti uma raposa qualquer, dessas que tem aos montes por aí. Mas se tu me cativar... aí muda tudo. A gente vai precisar um do outro. Tu vai ser único no mundo inteiro pra mim. E eu vou ser a única raposa do universo pra ti.»
O príncipe entendeu — entendeu com a barriga, que é onde a gente entende as coisas de verdade. Voltou todo dia, no mesmo horário, e sentava um tiquinho mais perto a cada vez. A raposa explicou o método:
«Se tu vem a qualquer hora, eu nunca sei quando preparar o coração. Tem que ter ritual, cumpadi. É o ritual que faz um dia ser diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas. Sem isso, os dia é tudo igual — e dia tudo igual é a coisa mais triste do mundo.»
Quando chegou a hora de partir — e toda hora chega, é o defeito que o relógio tem — a raposa sentiu o peito apertado feito nó de gravata.
«Vou chorar,» — avisou a raposa.
«A culpa é tua. Eu não queria te fazer mal nenhum. Tu que quis ser cativada.»
«Quis.»
«Mas tu vai chorar!»
«Vou sim.»
«Então tu não ganhou nada com isso tudo.»
«Ganhei, sim. Ganhei a cor do trigo. Antes, trigo era trigo — não me dizia nada. Agora toda vez que o vento bate no trigal eu vou lembrar do teu cabelo dourado. E isso, cumpadi, ninguém me tira.»
E na hora de ir embora de vez, a raposa parou, olhou fundo — daquele jeito que bicho olha quando sabe uma verdade que gente demora a aprender — e falou aquilo que ficou gravado pra sempre, que nem risco de navalha no balcão de botequim:
«Só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível pros olhos.»
«Tu te torna responsável por aquilo que cativou.
Tu é responsável pela tua rosa.»
No oitavo dia no deserto — e quando eu digo oitavo dia, é oitavo dia sem botequim, sem sombra, sem cervejinha gelada, sem nada — enquanto eu tomava meu último gole d'água, o príncipe disse assim, do nada:
«Bonito, né, o deserto.»
E era verdade, rapaz. Era bonito sim. Sentei na areia e não vi nada — nada de nada — mas tinha alguma coisa ali que brilhava em silêncio, escondida por trás do nada. Que nem samba que a gente ainda não compôs mas já tá cantarolando por dentro.
«Sabe o que faz o deserto bonito, cumpadi? É que ele esconde um poço em algum lugar. E a gente não vê — mas sabe que tá lá.»
Caminhamos horas debaixo daquele sol de rachar mármore. E quando achamos o poço, o príncipe abriu um sorriso que iluminou mais que o luar. A roldana cantou — (cantou mesmo, que nem cuíca de primeira) — a água tremeu no balde como um presente embrulhado em silêncio, e eu levantei o balde até os lábios dele.
«Essa água é mais que água, parceiro. Ela nasceu da caminhada debaixo das estrelas, do canto da roldana, da força do teu braço. É boa pro coração. É que nem presente de Natal que tu mesmo embrulhou.»
E o moleque tinha razão. A água que a gente carrega com esforço não é a mesma que sai da torneira — essa não tem história, não tem suor, não tem estrada. A outra tem gosto de madrugada, de sacrifício, de caminho andado no escuro. Quem nunca passou sede não sabe o valor de um gole d'água no amanhecer. E quem nunca perdeu nada não sabe o valor de achar.
✦ ✦ ✦No dia seguinte o príncipe chegou perto — mansinho, com aquela voz de quem já decidiu uma coisa grande — e me disse:
«Hoje faz um ano certinho. Minha estrela vai ficar bem em cima do lugar onde eu caí naquela noite.»
Tinha alguma coisa na voz dele que me gelou a espinha. Um samba menor, um tom que eu nunca tinha ouvido.
«Cumpadi, tu tá me escondendo alguma parada, não tá?»
Ele não respondeu. Nunca respondia — já disse. Mas dessa vez sorriu e falou:
«Vai parecer que eu fui embora. Vai parecer que doeu. Vai parecer tudo isso — mas não acredita, não. Eu só não podia levar esse corpo. Corpo é pesado demais pro caminho que eu tenho que fazer.»
Eu fiquei quieto. Quieto de verdade — daquele silêncio que só vem quando a gente sente que a despedida já tá acontecendo e não tem breque que segure.
«Mas é firmeza, parceiro. Escuta aqui: olha pro céu de noite. Como eu moro numa estrela, e como eu vou tá rindo numa delas, então vai ser como se todas as estrelas tivessem rindo pra ti. Tu vai ter estrela que sabe gargalhar. Quinhentos milhões de guizinhos no céu — e todos rindo.»
E ele mesmo riu — e o riso dele era bom que nem brisa de fim de tarde no Piscinão.
«E quando tu tiver consolado — porque a gente sempre se consola, essa é a graça e a tristeza da coisa — tu vai ficar contente de ter me conhecido. Tu vai ser sempre meu parceiro, cumpadi. Sempre. E vai ter vontade de rir comigo. Aí tu abre a janela de noite e olha pra cima. E os teus amigos vão achar esquisito tu rindo pro céu. E tu diz: é, as estrelas, elas sempre me fazem rir. E eles vão achar que tu pirou. Vai ser a minha sacanagenzinha contigo.»
E deu aquela risada de novo — gostosa, aberta, de moleque que sabe que a vida é boa mesmo quando tá acabando.
«Vai ser como se eu tivesse te dado, em vez de estrelas, um monte de guizinhos que sabem rir... E toda vez que tu olhar pro céu, tu vai saber que em algum lugar lá em cima eu tô cuidando da minha flor, limpando meus vulcão e rindo — rindo de verdade.»
· · ·Já faz seis anos dessa história. Nunca contei pra ninguém antes — malandro não sai contando os segredos do coração por aí, não é de bom procedê. Os colegas que me viram voltar do deserto ficaram contentes de me ver vivo. Eu tava triste, mas falei: é o cansaço. E eles acreditaram — (coroa sempre acredita na explicação mais simples).
Agora já me consolei um pouco. Quer dizer... não inteiramente — se fui consolado de verdade, não me lembro. Mas sei que ele voltou pro planeta dele, porque de manhãzinha o corpo não tava mais lá. Tinha sumido, que nem orvalho quando o sol bate. E de noite eu gosto de ficar escutando as estrelas. Quinhentos milhões de guizinhos no silêncio. E sou feliz e agradeço por isso.
Mas tem uma coisa que me tira o sono: esqueci de desenhar a correia de couro no focinho do carneiro. Sem correia, o bicho abre a boca quando quer. E fico pensando, pensando: será que o carneiro comeu a rosa?
Às vezes penso: claro que não, rapaz. O príncipe é cuidadoso, cobre a rosa toda noite com a redoma e vigia o carneiro direitinho. E aí fico feliz — e todas as estrelas riem baixinho, que nem pagode longe.
Às vezes penso: a gente se distrai uma vez ou outra, e basta. Uma noite ele esqueceu a redoma, ou o carneiro desguiou na carreira e chegou antes... E aí os guizinhos todos viram lágrima. E o céu inteiro chora em silêncio.
Olha pro céu. Pergunta pra ti mesmo:
o carneiro comeu ou não comeu a flor?
E tu vai ver como tudo muda.
E nenhum coroa do mundo inteiro vai entender que isso é importante. Mas é. É a coisa mais importante que existe — e cabe numa pergunta só.
Essa aqui é, pra mim, a paisagem mais bonita e mais triste do mundo. É o lugar onde o pequeno príncipe apareceu na Terra e onde depois sumiu — sem dar tchau, sem acenar, que nem estrela cadente ao contrário.
Se um dia tu viajar pela África e passar por esse pedaço de deserto, não vai embora com pressa, cumpadi. Para um pouco. Senta na areia, bem debaixo da estrela. Se então aparecer um moleque de cabelo dourado, que ri sem explicar por quê e não responde quando perguntam — tu já sabe quem é.
Aí faz um favor: me manda notícia. Me diz que ele voltou. Que a flor tá bem. Que os guizinhos ainda riem.